'Saí do luto para a luta, não quero que ninguém passe por isso', diz auditora que virou ativista após perder irmão para vício em bets
15/06/2026
(Foto: Reprodução) Auditora relembra morte do irmão após adquirir dívida milionária com apostas online
A advogada e auditora fiscal Juliana Prates se tornou ativista contra as casas de apostas online após perder o irmão para o vício em jogos. Em entrevista ao g1, a profissional do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) afirmou que a decisão de falar sobre o assunto nas redes sociais surgiu da dor da perda.
"Saí do luto para a luta, porque não quero que ninguém passe por isso", afirmou.
O irmão de Juliana, o também auditor Otacílio Prates, começou a apostar em 2023. Ao longo de quase dois anos, ele adquiriu uma dívida de aproximadamente R$ 1,5 milhão. Em dezembro do ano passado, ele tirou a própria vida.
⚠️ A ludopatia é um transtorno caracterizado pelo desejo incontrolável e compulsivo de apostar. É uma dependência comportamental similar ao vício em substâncias, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e com alto impacto na saúde mental.
Juliana e o irmão, Otacílio Prates
Redes sociais
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Após a morte do irmão, Juliana passou a usar as redes sociais para alertar outras famílias sobre os perigos das bets. Segundo ela, diversas pessoas passaram a entrar em contato para contar histórias parecidas com a do seu irmão.
"Muitas famílias vieram falar comigo, se identificaram. Percebi que é um problema de saúde pública silencioso", contou.
Além de ser procurada por pessoas que passam pela mesma situação, algo curioso aconteceu: a auditora fiscal passou a receber ofertas para divulgar casas de apostas. "Eu falo todos os dias sobre conscientização e recebo propostas de casas de apostas todos os dias", afirmou.
Publicidades das bets
Para Juliana, um dos maiores problemas envolvendo as casas de apostas online é a divulgação desenfreada. Em Salvador, as bets são divulgadas em eventos gratuitos e que reúnem crianças e adolescentes, como o Carnaval e a Lavagem do Bonfim.
"A publicidade é um gatilho muito pesado para quem está passando por esse problema", disse.
⚠️ De acordo com o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), esse tipo de propaganda deve ser protegida de crianças, adolescentes e outras pessoas em situação de vulnerabilidade. Além disso, todas as divulgações devem incluir uma mensagem de alerta padronizada, como "jogue com responsabilidade" ou "apostas são atividades com riscos de perdas financeira".
Jogos de aposta online.
Fábio Santos/g1
Pensando nisso, a profissional moveu uma ação popular contra o Governo da Bahia. O intuito era frear as publicidades das casas de apostas nos festejos de São João, que neste ano acontece no mesmo período da Copa do Mundo.
"O que a gente gostaria hoje é que não houvesse publicidade de apostas em festas nas quais a gente sabe que há a presença de crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade", explicou em entrevista a TV Bahia.
A ação foi parcialmente atendida pela Justiça, e a decisão da juíza Juliana de Castro Madeira, da 6ª Vara da Fazenda Pública de Salvador, foi publicada em 26 de maio. Ela adotou um meio termo ao pedido, já que muitas cidades dependem de patrocinadores para realização das festas.
Confira as regras determinadas:
horário limitado das propagandas, que só podem ser veiculadas depois das 22h;
são proibidas propagandas de bets em eventos infantis, como quadrilhas mirins, por exemplo;
é proibida a abordagem direta, ou seja, é proibido distribuir panfletos, dar brindes, abordar pessoas na rua ou usar QR code pra apostar;
artistas não podem divulgar as casas de apostas durante os shows;
o aviso é obrigatório, ou seja, sempre que a marca de uma bet aparecer no telão, o evento é obrigado a mostrar uma mensagem avisando que o jogo pode causar dependência.
Segundo a decisão, o governo do estado teria 48 horas para aplicar as medidas. Em caso descumprimento, a multa é de R$ 50 mil por dia podendo chegar a até R$ 1,5 milhão.
O g1 entrou em contato com o Tribunal de Justiça da Bahia, para entender se o Governo do Estado recorreu da decisão e se alguma multa já foi aplicada, e aguarda o retorno.
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